segunda-feira, 4 de junho de 2012

Excerto de “Daqui Ali”, Capítulo VII

            Excerto de “Daqui Ali”, Ca´pitulo VII.
            Vang Vieng, Laos. Prisao.

(...)

            Quando fui ao hostel deles ver se o Ilias queria vir fazer “tubing” não estava lá ninguém. Talvez o desenrolar da noite tivesse sido completamente diferente...

            Comi qualquer coisa, algo mais ocidental para variar, que o estômago também precisa. Descansado da VIDA comprei uma carteirinha de plástico a dizer “Vang Vieng” para pendurar no pescoço e assim me sentir mais à vontade no rio sem me preocupar com o dinheiro, e lá fui alugar a minha bóia. Estava chuvoso, mas quente, agradável. Munido já do instrumento fundamental para o “tubing”, enfiei-me numa tuk-tuk e, juntamente com cinco ou seis turistas, quase todos jovens ingleses, subimos o rio. Chegando, vi uma corda que atravessava o leito de uma margem à outra e outra corda amarrada a esta com um barco todo podre na outra ponta, para que não fosse com a corrente. Atravessámos as águas e logo estávamos no primeiro bar, uma cabana de madeira mesmo à beira-rio, cheia de pessoal sem mais nada a fazer senão curtir ao máximo aquela tarde. Estava toda a gente animada, sorrisos no rosto, música e boa onda. Não havia ninguém a vomitar, ninguém à pancada, ninguém aos linguados. Daí até anoitecer desceríamos o rio nas nossas bóias, sempre de bar em bar até ao derradeiro. Fui sozinho, mas rapidamente encontrei grupos aleatórios de pessoas que instantaneamente se tornavam amigos. Guardo aquela tarde como um bom momento na minha viagem. Sorri muito, falei muito, saltei para a água, nadei, conheci um sem número de pessoas que nunca mais vou ver.
            Tínhamos de voltar até certa hora para reaver o depósito de alguns euros. Quando inicialmente levei a bóia, estava convencido de que chegaria a tempo. Mas claro que não! Como estava a curtir, deixei-me ficar até à noite. No final estava com um português e mais cinco ou seis pessoas, e havia apenas três bóias. Adorei a maneira como descemos o rio, três em três bóias, e os restantes agarrados às mesmas, mantendo-as ao mesmo tempo unidas, como se fôssemos um par de células. Um de nós sabia onde sair, por isso não corremos o perigo de que tinha ouvido falar de falhar a saída para a vila. Contudo, ao chegar, percebi que é preciso alguém estar completamente fora para não reparar naquelas luzes vermelhas enormes a apontar o caminho. Se por um lado nenhum de nós estava sóbrio, por outro ninguém estava fora de controlo. Apesar da atmosfera de festa, os nossos espíritos estavam serenos e sorridentes.
            Quando regressámos a Vang Vieng, alguns foram jantar, outros foram para os bares. Eu fazia parte deste último grupo e isso foi, parece-me, um erro trágico – não ter sido suficientemente simpático para comigo mesmo e enfiar alguma comida naquele estômago vazio. No bar, a festa continuou. Daí para a frente, é tudo uma mistura de imagens e sons que se fundem e aparecem e desaparecem sem eu conseguir que façam sentido. Sei que fui mudando de amigos, falando, bebendo. Depois de um período de que não me lembro minimamente, a primeira coisa de que me assalta a memória é de ter esbarrado em algo. Depois lembro-me de ter as minhas mãos algemadas e de ter sido apanhado por alguém de calças verdes e t-shirt, que me enfiou num carro qualquer, sem me explicar o que se estava a passar. “Fui raptado...”, pensei, confuso e aterrorizado, sem saber que era a polícia que me levava, “Como é que se chegou a isto, como é que estraguei tudo?”. Estes momentos, e os subsequentes foram, sem dúvida, os piores da minha VIDA. A viatura descaracterizada movia-se entre a escuridão ao longo de minutos que pareciam não acabar, e quando parámos, enfiaram-me numa cela já repleta de vinte e um laocianos. Sentei-me num canto, tentando pensar que caralho se estava a passar. E senti que ia morrer. Não queria falar com ninguém – só pensava nos filmes que tinha visto, onde os raptores nunca querem que os reféns falem uns com os outros, para que assim não combinem nenhuma revolta. “Sou o único estrangeiro aqui. Devo ser o primeiro a morrer”, pensei. Ouvia uma rapariga na cela ao lado aos berros incessantes e pensei que era outra estrangeira que tinha sido raptada e estava a ser violada. Eu queria salvá-la. Queria libertar o pessoal da minha cela e salvá-la a seguir, sendo este instinto, hoje em dia, a única coisa positiva que posso retirar disto tudo, a aprendizagem de como reajo em situações extremas.
            Esperei que toda a gente adormecesse, chorei um bocadinho, disse adeus na minha mente a todos os que amava , e decidi fazer algo. Procurei em desespero por uma saída mas não havia uma única chance, estava tudo selado. Não queria render-me sem dar luta. Havia um gajo ao meu lado que me parecia estar em conluio com os raptores. Eu estava confuso, aterrado. Lembrei-me daqueles cenários em que põem alguém lá dentro para os alertar de possíves revoltas. Numa das mais loucas decisões da minha VIDA, e achando que era a minha última alternativa, dei-lhe um pontapé na cabeça. Toda a gente acordou e eu gritei “Vamos revoltar-nos, vamos revoltar-nos! Nós conseguimos!” vezes sem conta. Mas ninguém fez nada. Não conseguia perceber; como podiam estar tão apáticos face aos seus destinos? “Já o aceitaram”, pensei.
            Na verdade, tive sorte em não ser espancado, soube no dia seguinte.
            Pode parecer ridículo que nunca me tenha ocorrido estar na prisão. Talvez isto ajude – era uma cela de quatro por dez metros para vinte e duas pessoas. Havia uma porta com um pequeno buraco, duas janelas cobertas com madeira. Não havia nada senão chão e uma sanita partida num canto. O círculo de mijo chegava até mim, mas na altura aquilo era o menor dos meus problemas. Não havia colchões, ventoinhas, espelhos, nada. Só espaço, um monte de gente e uma sanita partida.
            - Desculpem-me – disse, ao sentar-me, derrotado, após a minha tentativa de revolta – não lhes digam nada, eu não quero ser o primeiro a morrer...
            Um rapaz começou a falar comigo. Eu não queria falar com ele, mas mesmo assim ele falou comigo, o que me levou a pensar que ele estava a trabalhar para “eles”, que pudesse ser daqueles que já lá estavam há tanto tempo que se tinham tornado um dos membros dos raptores – a ponte. Estava num modo tal de auto-preservação que a minha paranóia não me permitia confiar nele. Até que ele começou a fazer algum sentido quando disse que eu estava na prisão. E que eles não iam matar-me. Até este ponto eu não fazia a mínima ideia do que se estava a passar. Podia ter perguntado aos outros reclusos quando lá me enfiaram. Mas toda aquela situação era tão terrífica que o único cenário que imaginei foi o de rapto – alguém que me tivesse apanhado na rua, algemado e enfiado numa cela imunda e mal-cheirosa. Sabendo que, afinal de contas, tinha sido preso, podia dormir.
            Quando acordei fiquei na minha por um pedaço, até que o Ola, que me dissera na noite anterior que eu estava na prisão, veio ter comigo.
            - Eu vou ser teu amigo – disse-me. Explicou-me o que se estava a passar, e disse-me que eu provavelmente seria libertado até ao fim do dia. Era um rapaz porreiro e eu via que ele não pertencia ali. Quero dizer, de certa forma, só violadores e assassinos pertenciam a um sítio tão horrível quanto aquele, mas eu conseguia ver que estava a ser mais difícil para ele do que para alguns dos outros. E talvez tenha sido por isso que, apesar de ter dito que “seria meu amigo”, aquela foi a única conversa que tive com ele. Pouco depois disto, alguém do lado de fora chamou pelo falang. Vesti a minha t-shirt e fui lá fora. Apercebi-me de que aquela prisão não era mais do que um bloco de cimento protegida por arame farpado no meio de um descampado. O guarda esperava-me aí.
            - O que é isso? – perguntou-me, mal cheguei, apontando para os meus calções molhados. Senti que o fez para me intimidar, como que me recordando das condições em que estava.
            - É mijo. Dormi ao lado da sanita – respondi. Apressou-se depois a dizer que eu “tinha entrado numa casa e partido tudo” e que “toda a gente vira”. Eu sabia que não tinha partido nada. Desde que bebi a minha primeira cerveja, seja há quantos anos tenha sido, nunca tive uma explosão violenta devido ao álcool. Mas doía-me a cabeça do lado direito, por isso pensei se teria caido e batido em algo, talvez uma mesa, e a tivesse partido. Era tudo o que eu podia pensar. Mas será isso “tudo”? E seria necessário ter de pagar trezentos euros, que era o que ele estava a pedir? Mandou-me de novo para a cela, quando eu insisti que não tinha partido nada. À medida que me encaminhava para dentro, um outro disse que eu ficaria lá um mês – não foi fixe, nada fixe.

            Não tinha a certeza de nada, mas achava que talvez saísse no dia seguinte. Talvez no dia a seguir a esse, quem sabe. Tentei descontrair-me, mas era difícil. Lá dentro, as pessoas começavam a abordar-me, especialmente dois rapazes porreiros, o Matao e o Kamlao, aqueles que falavam melhor inglês e que seriam pessoas fundamentais para que eu não stressasse ainda mais. E um outro, cujo nome já esqueci, que me disse que eu tinha um bom coração. Tentava dormir, para que o tempo passasse mais rápido, mas já não havia mais sono em mim. O pessoal era bastante amistoso, partilhando entre si cigarros, dando-me alguma água sem eu pedir, passando-me algum arroz. O arroz... Adoro provar coisas novas, e o Laos foi o meu país preferido no que diz respeito a comida, mas aquilo que comiam naquela prisão... Bem, mantem-nos vivos, é isso, simplesmente. Tinha na mão uma bola de arroz pegajoso que afundava num molho que estava no meio do círculo. Foi para mim interessante ver como o pessoal se sentava nas duas refeições, em grupos de cinco ou seis, passando entre si diferentes “extras” como um ovo ou uns fios que sabiam a peixe. Cedo aprendi os costumes e passei, depois de uma pequena trinca, uma pequena posta de peixe que alguém me tinha passado, vendo na cara da pessoa que o recebeu alguma surpresa por eu o fazer. Além disto, segundo o que me disseram, essa comida, que partilhavam todos entre si, não era providenciada pelo estado, mas pelas famílias dos prisioneiros.

            Aquele era um dia especial. Talvez porque a sanita estava partida e os aromas não era exactamente de lavanda, a porta de madeira estava aberta, havendo então apenas um gradeamento entre nós e o mundo. O pessoal revezava-se ocupando lugares à volta deste fenómeno e eu permanecia no meu canto a tentar, em vão, ver o quão engraçado tudo aquilo era. O Kamla aparecia, de vez em quando, para falar comigo. O seu pai tinha-o posto na prisão um mês, porque ele andava a tomar muitas drogas.
            - Nos primeiros dois dias estava tão furioso que até dei um pontapé na porta e fiz-lhe um buraco... Mas agora estou ok, e não estou zangado com o meu pai. Agradeço-lhe, sabes?
            - Vais continuar a tomar drogas?
            - Só erva e álcool – respondeu.
            Eu tinha trabalhado com toxicodependentes no passado, e cheguei mesmo a viver na mesma casa que eles, na Noruega, durante meio ano. Mas naquele momento estava ali como se fosse um deles. Algo tinha corrido incrivelmente mal na noite anterior.

            A cela à frente e a outra ao lado estavam cheias de raparigas, todas prostitutas, e o pessoal entretia-se, dizendo-lhes aquelas coisas, ou a espreitar através de um buraco na parede que parecia ter demorado meses, ou anos, a escavar.
            - Elas estão a dizer que querem tomar um copo contigo – diziam-me.
            Eu tentava dormir. Nada.
            O tempo. O tempo esticava-se como nunca antes.
            Eventualmente chegou a altura do banho. O Matao aproximou-se e disse que eu podia usar uns calções que ele tinha e que estavam limpos. Isto para mim foi uma benção, porque não estava a morrer por tomar banho e depois voltar a vestir os meus calções cheios de mijo seco de outras pessoas. Juntámo-nos todos no exterior, debaixo do olhar do guarda, ainda dentro do arame farpado, à volta de um pequeno tanque de água. Quando o caneco chegava às nossas mãos tentávamos ser eficientes, lavando os nossos pecados nos poucos segundos que tínhamos disponíveis. Reparei como um grupo de quatro pessoas, ao mesmo tempo, enchia as garrafas de água. Não há Luso na prisão. Alguém passava um sabonete, fazíamos o melhor possível, e depois tínhamos o caneco na mão pela segunda e última vez. Este foi daqueles momentos que muitas vezes tenho, em que olhei à minha volta, como se saísse de mim próprio e visse aquela situação doutro plano e pensei “se há situações em que eu nunca me imaginei...”.
            De volta lá para dentro. A espera. A espera.
            Não eram permitidos cigarros na prisão, mas desde que a polícia não soubesse, o guarda contrabandeava-os. Ah, e claro, desde que nós, e por nós quero dizer eles, pagassem uma propina. Bem, cigarros e outras coisas como uma garrafa de água ou algum whisky.
            Pouco tempo depois de fecharem a porta de madeira, voltaram a chamar-me lá fora. E novamente, o homem queria o meu dinheiro. Quando eu repeti que não tinha partido nada, e certamente nada assim tão caro, ele mandou-me entrar outra vez, para meu desespero. Virei-me, derrotado, e tive ainda a gratificação de um pontapé.
            - Não estou bem, pá... – disse eu, ao Kamla. E não estava. Estava mal. Bastante mal. Respirei fundo duas ou três vezes e decidi que desistiria daí a dois dias. E foi essa a minha ideia durante as próximas oito horas, até que pensei nos meus, que não faziam a mínima ideia do que se estava a passar. Já não falava com eles há alguns dias, e por isso achei sensato desistir no dia seguinte.
            - Não penses tanto – diziam-me os meus colegas reclusos, notando o meu olhar estático.
            - O primeiro dia é o pior, certo? – perguntei ao Kamla, que serenamente anuiu.
            - Não te preocupes, não penses tanto, falang...
            E então deixei de o fazer. Rendi-me aos factos. Eu estava ali, e naquele preciso instante não havia nada que eu pudesse fazer. “Também isto passará”, repeti, um par de vezes, para me tranquilizar. E passou, já passou tudo.

            Alguns deles juntaram-se perto de mim, o baterista arranjou a sua bateria – uma espátula e uma escova de dentes como baquetas, e uma almofada suja e uma garrafa de água como tambores – e começou a tocar. O gajo safava-se bastante bem, tal como os restantes, que cantavam canções tradicionais ao ritmo que ele impunha. O Kamla tinha-me dito que eles geralmente cantavam muito, mas nesse dia nem por isso, porque a porta tinha estado aberta um pedaço. Pediram-me para cantar. Que se lixe, eu canto. Cantei então “Ó rama ó que linda rama”, com todas as letras e fazendo um esforço para que pudessem apreciar a eventual beleza da minha língua. Eles escutavam e tentavam, em vão, acompanhar.

            De vez em quando, o rapaz que tinha dito que eu tinha um bom coraçao vinha ter comigo. A dada altura pensei que era o terceiro melhor no domínio da lingua inglesa, mas à medida que o dia foi avançando mais pessoas vinham falar comigo e eu apercebi-me que, na verdade, havia mais pessoas ali a falar inglês do que eu tinha pensado. Este rapaz era uma personagem interessante. Às vezes eu não percebia o que ele dizia e, depois de lhe pedir para repetir uma ou duas vezes, simplesmente dizia que sim com a cabeça. Outras vezes ele falava tão perto da minha orelha que eu receava que me fosse pedir algo estranho. Não aconteceu. Tal como muitos dos outros a quem perguntei quais as razões do seu encarceramento, as respostas não eram as mais claras. Disse-me que tinha o coração partido e que os pais da namorada não gostavam dele. O rapaz estava muito triste, tal como ela. À medida que me contava isto começou a chorar e eu senti a sua dor, como se o conhecesse há anos, àquele rapaz que tinha conhecido algumas horas antes. Talvez em situações limite nos abramos mais aos outros. Já lá estava há sete meses, e ainda lhe restavam três. Muito tempo. Quando insisti subtilmente para me dizer a razão para lá estar, só me disse que os pais da namorada dele não gostavam dele. Não quis voltar a perguntar.
            Quando vi as pessoas a moverem-se de uma forma organizada, percebi que era altura de comer novamente. O mesmo procedimento. Não tendo nada mais que fazer, queria comer lentamente, para que durasse mais e assim tivesse uma mudança de rotina mais prolongada. Mas não era possível. Não é que eles estivessem a devorar mãos cheias de comida, mas não eram também exactamente as pessoas mais lentas, pelo que tive de fazer o mesmo para não ficar prejudicado.
            Não sabia que horas eram, mas tentava orientar-me por um feixe de luz que via através de uma fenda no tecto de madeira. Quando estranhei o facto de permanecer sempre igual, constatei, através de outro pequeno buraco numa janela, que estava errado, e a luz do tecto era artificial.
            Depois do jantar, três novos membros juntaram-se a nós . O Kamla disse-me que eram os “chefes” dos reclusos, talvez por estarem lá há mais tempo, e que eu devia fazer o que me mandassem. “Isto não é bom”, pensei. Durante o dia eles faziam uns trabalhos quaisquer lá fora e depois passavam a noite dentro.
            - Ele está a dizer que ontem à noite quando começaste aos berros, queria matar-te – o Kamla traduziu. Eu pedi desculpa e sorri um pouco nervosamente. Este mesmo gajo ia ser libertado no dia seguinte e por isso mesmo estávamos prestes a ter uma festa como nunca, nas palavras do Kamla. A música artesanal voltou e apareceu também o whisky. Disseram-me para experimentar, mas eu achei que já estava metido em problemas suficientes e disse que não. Eles disseram que não havia crise e acabei por dar um gole. Nunca provei gasolina, mas estou certo que o sabor é o mesmo daquele whisky caseiro laociano. Porque chamam àquilo whisky será sempre para mim um mistério. O Kamla disse que já estava meio bêbedo, e assim o parecia, apesar daquelas quantidades não darem para emborrachar ninguém. Mas a verdade é que não parava de dançar, convidando-me de vez em quando. Eu levantava-me, dançava um bocadito, e voltava a sentar-me. O ambiente estava ruidoso. E também estava meio fixe. Há algo em estar sentado com quase duas dezenas de homens semi-nus oriundos da outra ponta da Ásia numa cela bafienta e quente ao som de uma bateria de escovas de dentes que torna aquele momento numa experiência especial. Eu sabia que o Kamla queria que as raparigas vissem o falang, porque às vezes, mesmo antes de me pedir para dançar, ele tinha estado a falar com elas através do buraco na parede. ‘Tá-se bem.

            Um dos “chefes” pediu-me para cantar duas ou três vezes. Não me apetecia muito, mas cantei Bob Marley, a seu pedido. Contudo, acho que estavam à espera de alguém que soubesse mais letras que aquelas do refrão.
            Quando as coisas começaram a acalmar, deitei-me. Tinha estado todo o dia à espera que viesse a noite na esperança de que fosse mais fresco. Mas estava ainda mais calor. Como é que era possível? Será que a adição de três corpos era assim tão significativa?
            Pois estava eu ali deitado, à espera do sono, enquanto alguns ainda cantavam e a maioria dos outros conversava, quando o Kamla disse que eu devia dar algo aos “chefes” como um sinal de respeito. Paciência, não tinha nada que estivesse disposto a dar, por isso não dei nada. Um desses “chefes” já tinha brincado com o meu anel, mas eu disse que tinha sido uma amiga minha a dar-mo e ele devolveu-mo. Depois o Kamla disse que todos os novos reclusos tinham de mostrar a pila.
            - Estou só a traduzir… O pessoal está curioso acerca da pila dos falangs, porque dizem que é grande – e enquanto ele dizia isto, o “chefe” que queria o meu anel e que estava deitado à minha direita, começou a tocar-me no mamilo direito. Não estava com cara de poucos amigos nem de quem me queria comer, mas comecei e sentir-me desconfortável e a minha adrenalina começou a despontar.
            - Desculpa, méne, mas não vou mostrar a minha pila – disse, enquanto gentilmente afastava a mão do outro “chefe”. Não tenho nenhum problema com nudez, e muitos dos meus amigos já viram a minha pila tuga num ou noutro momento, tenha sido no rio, no mar, no quarto-de-banho, chuveiro, ou qualquer outro lugar. Mas quando é um pedido que a mostre, aí é quando tu pensas “Hum, não vou mostrar nada hoje...”. Acho que o Kamla reparou no meu desconforto, porque me disse para não me preocupar.
            Estava quase a adormecer quando me disseram que tinha de me mudar. A cela tinha lugares reservados, dependendo da data de entrada. Contudo, alguém foi suficientemente amável e apertou-se um bocado para que eu não dormisse no mijo outra vez. Fui então para o outro lado da cela e tentei adormecer. E estava a conseguir, até sentir uma mão no meu pénis. Afastei-a, e desta vez não fui muito simpático ou gentil.
            - Não faças isso! – disse, veementemente, para o Kamla. Mas que caralho? Ainda por cima era o Kamla! Ele pediu desculpa três vezes, quis ter a certeza que eu não estava zangado com ele e disse “é só porque toda a gente está a falar da tua pila”. “Foda-se, será que isto é suposto fazer-me sentir melhor?”, pensei.
            Dormi. E ninguém mais partilhou, pelo menos tanto quanto me tivesse apercebido, o interesse táctil do Kamla pelo meu pénis.
            No dia seguinte, uma das primeiras coisas de que me lembro é de ser chamado lá fora. “Lá vamos nós outra vez”, pensei. Mas desta feita foi diferente. Disseram-me para entrar na carrinha. Tentei voltar lá dentro e vestir os meus próprios calções e dar os que tinha ao Matao, mas a polícia não podia esperar.

            Levaram-me até ao meu hostel e revistaram o meu quarto. Para meu agrado estava lá tudo – tinha equacionado se, dando pela minha falta, alguém entraria no quarto para se servir das minhas coisas. Também lá estava a minha carteira, de onde, sem qualquer parcimónia o polícia tirou o equivalente a sessenta euros e meteu no bolso. Mandou-me tomar banho. Não sabia qual era o próximo passo. Disseram-me para vestir algo que ainda não tivesse usado, por causa do cheiro. Quando disse isto pensei que fosse voltar para a prisão. Mas não aconteceu. Ao invés, levaram-me para a pequena esquadra, onde bebi sofregamente quatro copos de água, enquanto esperava, sentado numa cadeira a ver a fotografia de uma pessoa que tinha morrido no “tubing” não sei quando. Passado um bocado o gajo mandou-me entrar. Sempre o mesmo gajo. Disse-me que eu tinha entrado numa casa qualquer para dormir, e tinha partido tudo, e toda a gente me tinha visto e que eu estava aos berros. Não havia nada que eu pudesse fazer. Conseguia ver-me a adormecer num sítio qualquer. Nunca me tinha acontecido, mas podia acontecer. Mas não numa casa alheia. E nunca começaria simplesmente a partir tudo e começar aos berros sem razão. Disse-me que tinha de pagar quinhentos euros. Nada bom.
            Pensando que, apesar de tudo, o pior já tinha passado, fui levantar dinheiro. Não podia ficar ali para sempre. Quando voltei, estava lá uma senhora. Supostamente, era a senhora cuja casa eu tinha visitado. Estava toda bem vestida, e sentámo-nos juntos, os três, na sala de interrogação. Estava a falar em laociano, e ele estava a traduzir. A primeira coisa que perguntou foi como é que eu tinha aberto a porta. Eu disse que não sabia, porque não me lembrava de nenhuma porta. Que porta? Que era aquilo? Seria alguma coisa real? Estava prestes a ficar pior.
            - Ela quer que tu pagues dez mil dólares, porque diz que tentaste ter sexo com o filho dela – o quê?! Aqui entrei um bocado em pânico. Fui apanhado completamente de surpresa, e aquela vaca queria sacar tudo o que era possível de mim. Eu disse que era impossível que tivesse feito tal coisa, e que não tinha esse dinheiro. Insisti que falasse com ela, porque eu nunca faria algo assim, o que ele fez, acabando ela por dar uma versão diferente do caso, dizendo que afinal não tinha sido o filho, mas a filha. Mais uma vez tive de ser firme aqui, negando tudo, até que polícia levou a cota lá fora para falarem.
            - Ela pode dizer o que quiser, ninguém sabe – disse-me ele, ao ouvido, quando voltou e se sentou. Até este polícia corrupto estava a modos que do meu lado nesta pequena janela do tempo. Ela voltou e disse que queria trezentos euros. Eu tinha ido ao multibanco e tinha duzentos euros comigo, mas não podia levantar mais dinheiro naquele dia, graças ao meu sagrado limite de levantamento. Ela ligou ao marido e ele aceitou a descida de dez mil dólares para duzentos euros. Quando perguntei para que era o dinheiro, o polícia disse que era para pagar o vidro que eu tinha partido e limpar o resto da casa. Incrível como é que supostamente eu tinha partido um vidro tão caro e não tinha uma única mazela, apesar de estar só de havaianas, calções de banho e t-shirt. Quanto aos outros duzentos que tive de dar à polícia, “é para a lei do Laos, estavas a fazer muito barulho”. Que é que um mano há-de fazer?
            A senhora foi-se embora depois de eu me desculpar por, bem..., o que quer que tenha feito.
            - Tens de pagar mais duzentos euros para a “lei do Laos” – disse o polícia.
            - Mas eu já te dei sessenta! Então só tenho de te pagar cento e quarenta – respondi, lembrando-o do quão ávido ele estava ao tirar os sessenta euros da minha carteira no meu quarto.
            - Mas tu tens de pagar mais duzentos! Os sessenta não interessam – repetiu, para meu espanto. Após alguma batalha, lá consegui baixar o pagamento para o que era suposto. Ele levou-me ao meu hotel, ficou com a minha câmara, bilhete de identidade e carta de condução como depósito, porque só podia pagar no dia seguinte, e foi-se embora.
            No próximo dia liguei-lhe e fui à esquadra. Ele estava em Vientiane, e tinha os meus documentos. Paguei o resto, devolveram-me a câmara, pedi um recibo e disseram-me que não mo podiam dar, porque o polícia que estava em Vientiane é que tinha as chaves de uma gaveta qualquer. Naquele momento já nada importava. Só queria bazar dali e dar aquilo como terminado.
            E depois tive de ir para Vientiane e arranjar um encontro com a última pessoa que eu queria ver no planeta, para que ele me pudesse dar os documentos. Felizmente o encontro foi breve. Ele apareceu com a carrinha, deu-me os documentos e disse-me para eu não dizer nada à minha embaixada, ou podia meter-me em problemas. Eu sei que quem se podia meter em problemas era ele... mas para dizer a verdade, eu só queria meter aquilo para trás das costas. Ainda que não me fosse possível esquecer, queria evitar pensar naquilo. Talvez devesse, efectivamente, ter-me queixado da maneira como me trataram sem quaisquer provas. Mas não quis. Partilho aqui a estória, valha ela o que valer.

(...)


domingo, 10 de julho de 2011

Nails


The first time I saw my mother’s nails coincided with the first time I had a glimpse of her true self. More than this, perhaps… it was the first time I actually saw the different layers of her personality, the first time I saw through that magical mirror she carried within her soul. It was also the last time I saw her.

It’s obvious to assume I got to know my mother the day I was born. Even more obvious it is to know that I don’t remember anything. However, I used to think I did. I know now it was nothing more than a created memory, provided by the clear idea my mother used to offer me. So, as I grew up I was sure I remembered every single detail. I couldn’t imagine my mother all sweaty, cursing and desperate. The images I had had of birth, mainly through TV, were of these repulsive human beings, showing everyone around that, deep down, we’re all made of the same substance, and we’re animals, no matter what. Not my mother, though. I used to imagine her lying in bed, her hair perfectly aligned with the white cushion, an incense scent in the air, her delicate hands with green painted nails, softly stroking her belly. No doctors were needed, but they had to be there anyway, so they’d share a tea while discussing how rewarding it was to give birth. Then, all of a sudden, she’d close her eyes, and we would hear me laughing out loud. That’s it, the perfect birth.

It’s funny… now I think of how all my attention when trying to recapture the day I was born was focused on my mother. I guess that describes her, in a way: regardless of how important the rest of the mortals (would think they) were, she would be the one we would be thinking of – no need to fight it.

Some years after birth I started to have my first real memories of her. They were no longer created but this, sadly, means not that they were not idealized. For even if I could recall every tiny detail behind her actions and existence, the meaning I would give to it, all the stories I’d imagine, would be quite my own... it’s impossible for me to describe it as real or unreal, genuine or fake.

The memories are real, but whatever they meant to me seems to have changed that day I saw her for the last time. Don’t know why I feel guilty about this… I guess it might be unfair to question a whole existence of perfection just due to the stain of one horrible day. But is it, really? Or is it just a window into another person’s reality? Because after all, what do we know about everyone else apart from what they want us to see? And what do we actually know about ourselves apart from what we don’t want the others to see?...

By the age of ten I was a premature and beautiful child that wore makeup, painted her lips and had an angel’s hair. Most of my days would fly by gently with my mother’s Midas touch, in our barely changeable routine. I would wake up five minutes after her, when she had had her shower and turned on the stereo, usually playing Duke Ellington. I remember it as if it was happening right now… I can feel the warm duvet all around me, the musical notes dancing in the air and pulling me away from the world of dreams into a dreamed world, the aroma of something indefinable inside me...

We only had one bathroom, so I would have my shower while she would stare indefinitely at herself in the mirror, slowly retouching here, coloring there, ascending those few steps above from where she would look and smile at us, and from where she’d try to teach me how to climb it. I remember the mystical moments she taught me to carry in our appearance. “All the effort needs to seem effortless.” – she’d say, while combing my hair – “Because almost everybody, with a couple of teners, can look good, but only angels like you can look dazzling.”. So, in spite of wearing makeup, painting my lips and having in my mom my own private hairdresser, people would notice nothing but the beauty in itself. “You see, baby, beauty is not something you can count separately… sometimes people think someone is beautiful, and they realize that the hair is beautiful, the skin is beautiful, the eye lashes are beautiful and so on… but when you do it right, people can’t really think of those tiny details… you’re too glittering and harmonious to just be destroyed into pieces. You’re one with yourself.” – I would hear this motherly advice as if it was a prophecy. I could rarely doubt it simply because I’d see it. And when I would, a bit later on, with the challenging tone of adolescence, I would soon come back to Earth when I looked at her presence through other people’s eyes.

Probably because, early in the morning, I had the opportunity to see my mother put all these pieces (as she would call it) of herself together, I secretly admired them separately. It was my little secret, the one I could never reveal no anyone, let alone her, and this made me feel truly blessed – having the opportunity of seeing a raw diamond of naked beauty being shaped and turned into a stunning image of perfect proportions.

Needless would it be to say I loved all of these “pieces”… – the way she’d turn her rebellious hair waves into weightless feathers, how her lips would leap from pretty to glamorous, how her eyes would shift their purpose from seeing into being seen. However, for some reason, the one that made me dream the most were her nails. They would change like the autumn wind, perfectly synchronized with her mood, which would change like nature in early spring. So, with time, I learnt how my mother was feeling, and what was going on for her, by noticing the varnish she was wearing. I remember the vivid blue and her big smiles and walks to the ice-cream store, the white and our slumber parties and everlasting conversations, and the strong yellow and visits to my grandparents. I learnt how to be weary of the dark brown and her silences, the powerful red and her unpredictable behavior and simultaneous flirts, and the black and her nights crying herself to sleep – I’d fall asleep myself in tears, alone in my room, feeling like there was a world between us standing in our cold hallway. She’d be impenetrable in her sadness and this made me feel like a stranger even to myself. Today I can see my identity was so tied to hers that when she’d push me away from this tight symbiosis I would feel as if I was losing my own self.

From all of these variations, I would love the most the light green, and I would hate the most the beige – the color so soulless it would almost seem as if she had no paint at all, but only a shiny varnish. My gigantic eyes would light when gazing at her gracious light green nails in the morning. I lost somewhere in time the connection I once established but somehow I always associated this color with important events in our LIVES. Whether it was one of our birthdays, a weekend at the beach in Newquay with mom’s latest boyfriend, or the eminent work promotion, this color would come with a general feeling that LIFE couldn’t get any better than in that long moment, that I would be young and cheerful forever and she would always protect me.

I hated the beige, though. She used to smile when wearing this color. I used not to. She used to smile and she used to cry. She used to look at things like other people do, she used to eat as other people do, used to be as others are. Other people wouldn’t know what was different; they would only know that something was. The fact is, when wearing this color my mother would do anything like anyone else. And this would kill me. Like watching a singer sing for deaf people or a bird walking to the bus station, witnessing my mother acting as if she was just another person was dreadful and, in a way, almost unholy.

I’ve tried, throughout the years (and eventually giving up), to achieve this unity within myself and my color. However, it always felt artificial, like something was missing, and I would find myself as though I was in a play, having a thought about my feelings, painting my nails according to it, and eventually acting a part I had earlier on the day created, falling into a vicious circle where my feelings would dictate my color and my color would dictate my feelings. The day I finally saw my mother’s true color I was suddenly hit, not necessarily by reality, but by a couple more choices that would threaten to shatter what I thought to be unbreakable. If before I would perceive these two poles as inseparable, all of a sudden I found myself questioning the perfection of all her… game… was it a game? Was there a mask, and if so, where? Would she decide her feelings and find her color accordingly, or would she randomly choose the color and act the part with such skill and excellence, the same way I had found myself (unintentionally) doing?

One of the reasons I can’t do anything but assume is that this was the “piece” that I would never see being put together. The rest of her would come to LIFE step by step under my attentive supervision, apart from this. I never really understood, or asked, why,… just took it as a given that this was something, for some reason, beyond my privileges. I used to imagine her painting her nails in bed every morning, drinking a cup of extremely hot and exotic tea while watching the news. I would imagine her heart beat differently every second, like some charming arrhythmia that would let her know exactly how she felt. I would also imagine, I’m embarrassed to admit, she would eventually show me how to paint my own nails flawlessly at some point, as some rite of passage. The truth is adolescence came and she didn’t; adulthood came and nothing happened. Call me crazy, but I blame my mother for those infernal times I was called immature or, on the charming side, I thank her, for those times when people tell me I can be refreshingly childish. It is as simple as this: I took my time growing up because these rites of passage never came, so instead of making an effort into evolving, I made an effort into staying the same, adapting myself to my expectations – and may no one dare call me immature or stupid for having this immature and stupid reasons to explain my own immaturity and stupidity… Again I realize how, for better and for worse, my world still revolves around her…

I did have my rebellion times and silent protests, when I’d buy the biggest, ugliest and cheesiest fake nails I could find and parade around my house, my hands so bent upwards it was easy to think I had two broken wrists. The response to my silent protest was silence, of course – I never got to get through. I wonder if I’ve ever had any influence in her colors…

I can’t say anything about her own rites of passage, since I’m not sure how she aged, or even if she did so at all. I couldn’t really perceive it. I know, I know that people we see that often, age beyond our eyes. However, there was something different in her ageing, which was the magical compensation she must have had in order to make it work perfectly. Probably because most people don’t get anything from age but wrinkles… experience most times seems to account for nothing but proving how stupid everyone is. I’m aware I might be going down the same path, since like most people who have been around for at least a couple of dozen years, I have repeatedly made the same mistakes over, and over again. I wonder whether there is some stubbornness, some poor linking in our brain that makes our actions seem so similar, as if by doing the same thing ten times it will probably work. So, I’ve come to the conclusion that, when ageing goes well, people stay the same, they just age… no common sense, no nothing but the constant reshaping of skin and hair that somehow seems to be more beneficial to men than women – compare the princess beauty and the handsome prince from high school and have a look at them twenty odd years later… who’s further down the ugly lane?

I now wonder if I’m talking nonsense, and this connection is pointless... could it just be that both genders actually age the same way, but men are much more shallow and superficial, and therefore the weight the years provide us with is more conspicuous in women?... because men see nothing else?... and could it be that women actually value aspects like one’s charisma, purity of heart (!) and personality?

So, having all these conflicting premises about ageing, I find myself with the proof that there has to be an exception to every rule. I’m going to forget for a couple of minutes how biased I might be, since it’s my mother I’m talking of, and assume that, in fact, I have no idea how she changed throughout years. Don’t get me wrong, show me a picture of her aged twenty and aged forty and I can see (some of) the difference. But the thing is – my mother’s pictures were never my mother. I would always compare it to those pictures that come in the frames one buys, printed times one gazillion… you can see the soulless faces, no matter how beautiful they are, and it’s easy to assume they’re not actual people. So, having said this, I throw away the “picture factor” when trying to explain my mother’s ageing. She did get a couple of wrinkles, but it’s like they came at the perfect time, in the perfect place, and she would adapt to them in a way that it would seem a shame for her not to have them. True.

I now know that perhaps she didn’t face her ageing as lightly as I have, and that she might have failed to see the gracious way in which she did. When confronted with the harsh reality as I was, I force myself to look for hints and look for explanations. Anything would be good, but now it’s impossible to know.

It was a Friday afternoon, that day. I had come off work and decided to stop by my mother’s to say hello and invite her for a coffee. It had been a week or so since I had last seen her colors. I rang a couple of times and assumed she must have been asleep. So I opened the door, called her twice and decided to have a look around. Her car was outside, so I thought she must have gone jogging or some other activity outdoors. I sat watching TV for just over half an hour, and eventually felt the need to use the toilet. As I opened the door, my heart stopped. The image I had in front of me could mean anything. She could just be relaxing and listening to some music with her phones (explaining why she hadn’t heard me), she could be sleeping (idem), or she could simply just not want to be bothered. However, her colors were gone. A couple of yards ahead was the bathtub. I could see nothing but her right arm on the outside, slightly bent; her naked nails pointing down, completing the sad curve that perhaps represented her last and true feeling. Her skin was as white as the floor where I sat for one hour, leaning against the beige wall. I didn’t cry, and I didn’t rush to save her. I didn’t need the illusion of the clear conscious in believing that I could have done something. There was no sound, there was no LIFE, there was no color, and this is all I needed to know. I didn’t really know what I felt. I sadly smiled, thinking about my ignorance in knowing which color I’d use.

For that long hour I couldn’t look to my right. Reality had hit me. All these thoughts I’ve been sharing came to LIFE with no mercy and I suddenly realized I knew nothing at all. The different layers of her personality were there, two yards to the right, represented in the lack of layers on her finger nails. The idealization was gone. I tried to cling on to it as hard as I could, maybe telling myself I couldn’t have been so stupid and blind, maybe telling myself my mother’s real nature was not that one.

I don’t really know how to evaluate my mother’s true self, true colors, nor do I know whether I should. I do know that what I had taken for granted and perfect was much deeper and complicated than I would ever have thought. I do know that it’s easier to see perfection than bothering helping with imperfections. The truth is, in a moment, I was hit by the overwhelming weight of carrying a soul as my mother did. For the assumption of the lack of flaws and mistakes is, in the end, the deadliest mistake of all. I wonder when it got too much for her. I wonder how heavy her solitude must have been, and I wonder how she decided that day would be the last one. Going back on my beliefs, could it be that she felt the charming arrhythmia dying and therefore decided to kill it herself? Could it be that it gets too much to have yourself as your most common company? Or, on the other hand, wondering if she actually was perfect, and none of it was an act at the cost of extreme effort and pain, could it be that that was the weight in the end? Could it be that with perfection comes the loneliness of realizing how the rest of beings are just trivial?

The world didn’t need, or deserve, to have these thoughts and doubts as I did, and do, about my mother, so she left us in a closed casket, much to my demands. For if the person is gone, what point is there to see the evidence of the descending curve? I closed my own gates for other people for some time. No, I wouldn’t fall into depression and reject everyone or any of the cliché behaviors we usually listen to, or read, when someone opens up… I needed time to think, I needed time to decide which version of reality I’d choose, and I needed to draw my own picture of my mother and stick to it, preferably a positive one. With all these reflections came the notion of how linked with her I am and will forever be, and I need to believe that something there was real in order to feel more real within myself. Maybe it’s sad to define your reality according to someone else’s, but that’s what, how, or who my mother was, and in a romantic and profound way, I’m glad she was like that.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Impossível


Já experimentaste subir um rio sem sair de debaixo de água? Já experimentaste sorrir sem mexer o coração? Já experimentaste chover? E o tempo, já experimentaste? Eu nunca experimentei estas coisas. Frustra-me, sabias? Porque tenho de ser limitado? Porque não pode a minha vontade ser sinónimo do acontecimento? Porque tenho de ter a capacidade de pensar e imaginar e sonhar e a inabilidade de o viver? Como se fosse um pássaro sem asas. Sou forçado a ficar no meu ninho, onde vejo todos os meus irmãos passarinhos confortáveis e famintos, à espera da comida que vem cá ter sem nada termos de fazer. Falo com eles, mas não me satisfaz. Não percebem. Têm as suas asitas, que desenvolvem, e começam a caminhar pelo céu. Eu também ando por aí, e caminho pelo céu. Mas só posso ir onde posso ir. Só posso ir onde posso ir e isso não é justo. Se tenho estas asas porque não as posso tornar num portal que me permita existir num nível onde tudo é possível? Porque tenho de viver massacrado com a frustração do não-acontecimento?

Não sei. Já experimentaste experimentar experimentar? Acho que nem isso experimentaste. Espero que sim, sabes? Mas creio que não. E o que é melhor? Ok, vou abandonar a minha resignação e o meu confortável e passageiro sentimento de vítima, e vou tentar ver diferente. Vou. Será melhor a realidade terrena mais ou menos vivida, ou a realidade terrena pelo menos vivida? Será melhor a realidade terrena como o passar de dias infinitos, ou o sonhar com algo diferente que nunca vem? Será melhor almejar o impossível ou contentar-se com o possível? Sim, é isso. Acho que enquanto almejamos o impossível estamos a viver uma pequenina parte do mesmo. É mesmo isso. Os meus irmãos passarinhos talvez vivam metade da sua realidade terrena. Não sei se vivo o mesmo que eles, provavelmente sim, mas acho que o milionésimo por cento que vivo do impossível, apenas usando as minhas asas de papel valem por todas as possíveis partes da realidade terrena, que têm um fim. Quero uma inteira parte de algo que tem um fim, ou uma ínfima parte de algo que nunca acaba?